terça-feira, 8 de julho de 2014

REFLETINDO COM O SENHOR PALOMAR
** Reflexão sobre o texto:” O Modelo dos Modelos “ de Italo Calvino

Senhor Palomar, escrevo para lhe dizer, que a sua busca primeira por um modelo perfeito e adaptável a diferentes realidades ainda acontece entre nós.
Mesmo entre jovens professores saídos de renomadas universidades encontramos aqueles que procuram apostilas e fórmulas prontas para as suas aulas.
Será que não exercitaram a capacidade de ver além, de transformar conhecimentos para diferentes realidades?
Ah! Senhor Palomar; o que mais nos surpreende são algumas escolas de Arte que não sabem ousar e quebrar seus modelos e tendências - mesmo vivenciando a quebra de padrões e conceitos ao estudar a história da arte no decorrer de séculos. Testemunhas das mudanças na avaliação de artistas, renegados em determinado período e exaltados num momento seguinte.
Como é difícil, senhor Palomar, mudar conceitos e ideias, sejam eles quais forem.
O corpo docente do Colégio Pedro II é formado por professores competentes em suas diferentes disciplinas e, também capazes de criar novas metodologias que são referência em outras instituições de ensino.
Mas o que nos falta, senhor Palomar? O que falta a alguns professores, tão habilidosos em fazer diferentes adaptações nas suas salas de aula, para que seus alunos conquistem o padrão CPII, tão almejado pela instituição, por seus pais e responsáveis?
Nada contra a busca da qualidade de ensino numa sociedade tão competitiva. Mas não podemos deixar de concordar com o senhor e com a sua conclusão de que a realidade não é padronizável. E, é isto que nos falta.
Nos falta a compreensão de que não somos o resultado de uma produção em série, saídos de um molde que determina nosso modo de ser e proceder.
Muitos colegas são capazes de transmitir o conhecimento de forma criativa, mas, privilegiando somente aqueles que atingirão o padrão CPII de ensino.
Em nossas salas de aula, temos alunos com necessidades especiais e específicas que dependem da cooperação e da capacidade dos professores em criar estratégias pedagógicas para facilitar sua a inclusão na rotina escolar.
Por que tanta resistência em aceitar a possibilidade de um trabalho integrado com os outros colegas que os atendem? Falta de percepção das variantes da condição humana? Falta de conhecimento das especificidades de cada deficiência? Não aceitamos estas afirmações, pois são professores dedicados e atentos aos seus alunos.
As questões acima podem ser elucidadas pelo professor do AEE, no seu trabalho na sala de recursos ou em atividades integradas com professores, técnicos e gestores da escola .
É ele que pesquisa todas as informações sobre o aluno em estudo, sob o enfoque familiar, escolar e com os profissionais de saúde que o atendem. Estabelece parcerias com os envolvidos acima citados e cria um planejamento para que desenvolva suas habilidades e quebre as barreiras impostas por suas limitações.
Não podemos desenvolver o que não conhecemos. Assim, podemos pensar que a instituição também tem responsabilidade em criar situações que visem a melhoria da aceitação dos alunos de condições especiais. Institucionalizar procedimentos e informar melhor o seu corpo docente sobre a importância da atuação dele na adoção de uma política educacional inclusiva, pode criar um ambiente favorável e parcerias produtivas.
O senhor Palomar pode dizer que a Lei da Inclusão ( Lei no 7853 de 24/10/1989 , regulamentada pelo decreto
 no 3298/1999 ) existe e que deve ser seguida.
Respondemos que devemos seguir a lei mas que o importante é termos a consciência de que o padrão CPII deve ser oferecido para todos, respeitando diferenças e habilidades.


O modelo dos modelos”
Italo Calvino

Houve na vida do senhor Palomar uma época em que sua regra era esta: primeiro, construir um modelo na mente, o mais perfeito, lógico, geométrico possível; segundo, verificar se tal modelo se adapta aos casos práticos observáveis na experiência; terceiro, proceder às correções necessárias para que modelo e realidade coincidam. [..] Mas se por um instante ele deixava de fixar a harmoniosa figura geométrica desenhada no céu dos modelos ideais, saltava a seus olhos uma paisagem humana em que a monstruosidade e os desastres não eram de todo desaparecidos e as linhas do desenho surgiam deformadas e retorcidas. [...] A regra do senhor Palomar foi aos poucos se modificando: agora já desejava uma grande variedade de modelos, se possível transformáveis uns nos outros segundo um procedimento combinatório, para encontrar aquele que se adaptasse melhor a uma realidade que por sua vez fosse feita de tantas realidades distintas, no tempo e no espaço. [...] Analisando assim as coisas, o modelo dos modelos almejado por Palomar deverá servir para obter modelos transparentes, diáfanos, sutis como teias de aranha; talvez até mesmo para dissolver os modelos, ou até mesmo para dissolver-se a si próprio.
Neste ponto só restava a Palomar apagar da mente os modelos e os modelos de modelos. Completado também esse passo, eis que ele se depara face a face com a realidade mal padronizável e não homogeneizável, formulando os seus “sins”, os seus “nãos”, os seus “mas”. Para fazer isto, melhor é que a mente permaneça desembaraçada, mobiliada apenas com a memória de fragmentos de experiências e de princípios subentendidos e não demonstráveis. Não é uma linha de conduta da qual possa extrair satisfações especiais, mas é a única que lhe parece praticável.

Um comentário:

  1. Parabéns, Maria Luiza!
    Concordo com você . Todos devem ter acesso a uma educação de qualidade,mas precisamos estar atentos as individualidades..

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